.7- Trabalho de Parto
"- Não quero você com esta porcaria na mão. Já li e sei o que contém: imundice, só imundice, indecência! É assim que se desencaminha uma moça de família. Não vou permitir que isto aconteça dentro de MINHA casa, com a minha PRÓPRIA filha.
E em poucos segundos a revista estava trepidando em pedaços sobre a mesa. E a malfadada publicação, nem ao menos pornográfica, era o primeiro número de uma revista do tipo feminista, cuja capa, numa perfeita trucagem fotográfica mostrava uma mulher sem boca, como que simbolizando o silêncio de que há muitos milênios vem sendo acometida"...
Deixei a água morna escorrer sobre o meu corpo cansado e quente (o verão já começava a queimar as calçadas e as camas, mas, eu sentia frio e calor, calor e frio. Era a inconstância dos trópicos do meu país em mim). Comecei a fazer uma viagem baldeada, atropelada pela imaginação fértil e confusa. Flashes reluziam em minha mente: mistura de verdade e mentira... Uma maravilhosa mentira...Uma mentira sincera. E ali estavam: meio eu, meio o personagem, meio o narrador. E o narrador era eu e não era.
“... Das Dores...” Sim, este seria o seu nome e não, Cris ou Lígia como sugeria o estereótipo de mulher preste a emancipação"...
“... Das Dores, uma adolescente mimada e temperamental não iria se deixar dominar por homem nenhum. E aquele abominável gesto de seu pai foi a ‘gota d’água’ para fazê-la tomar tão difícil decisão – sairia de casa"....
O mundo lá fora a levou como a um redemoinho. Pôs sua roupa mais neutra: uma calça jeans, camiseta, tênis. Naquele momento não era homem ou mulher. Só queria ser GENTE.Queria poder pensar sem que ninguém lhe dissesse o que era certo ou errado. E saiu à procura de emprego (mais uma mulher a ser sugada pelo mercado de trabalho –esse esperto agente do sistema, que se ria, se babava ao vê-la sair).
Gostaria de mergulhar num sono profundo, sonhar um livro, uma estória pronta, com princípio, meio e fim e um açucarado happy end, como a maioria dos novelistas.Mas não conheci o silêncio do pós-guerra, a paz relativa, a bonança, a estabilidade, a fartura. Vivo a insegurança e a incerteza do ciclo histórico em que estou contida. Feminismo, ditadura, armamento nuclear, fim do mundo. É o nó.
Tomei-me lavando a louça que deixara do jantar. A água lavava tudo: os pratos e a memória. Era sexta-feira santa e eu também lavava minhas mãos.
O papel em branco é como um paciente em coma. O coração bate artificialmente. Será preciso um milagre para que ele retorne a vida.
- TUM-TAM...TUM-TAM...
A folha de papel é preciso tocá-la, impressioná-la, percorrê-la ou deixá-la moribunda.O escritor é o médico ou O DEUS, em sua mais compreensível definição: o acaso. O escritor é O CRIADOR.
Em casa não me faltava quase nada. “Tinha marido, filhos, comida...” era a felicidade insuportável de Ana, personagem de Clarice Lispector em Amor Amores. Mas, eu...? Escrever, para que? Não iriam acreditar que eu era a autora. “Mulher não escreve,não pensa. Nasceu para casar,ter filhos...”.
De das dores não soube mais nada, senão o que aquela brisa da madrugada me contou. Não nos conhecemos, na verdade, não somos amigas, não chegamos a trocar confidências, mas estou certa de que a encontrarei em algum ponto desta viagem. Quem sabe se num deslumbre homossexual, porque a amo. Ou não seria esta, uma maneira de julgar ou definir os meus próprios sentimentos? Ou seria um sentimento maternal, já que ela é meu personagem e a criação é como um parto e se a sinto pulsar dentro de mim?
Fiz as camas às pressas, passei de má vontade uma vassoura na casa. Queria terminar aquele conto. Mas era muito difícil para mim. Largar OS MEUS AFAZERES era uma decisão complicada e dolorosa. Minha cabeça fervia. Escrever também era muito doloroso. O suor escorria-me enquanto soltava gemidos ainda tênues. Deixar o trabalho de casa para escrever era como deixar a cidade em que se nasceu, se criou, mas que, infeliz-mente não se cabe mais. Torço-me cambaleante. Encosto-me na parede para não cair. As dores são cada vez mais fortes. As contrações cada vez menos esparsas. Arrebenta a ‘bolsa d’água’!
_FIM-DO-MUNDO, DITADURA, MOVIMENTO GAY.
“... Por não querer se deixar dominar pelos homens, Das Dores não teria que ser homossexual, mas era. Talvez como uma maneira de juntar com outra mulher as forças contra o domínio masculino em todos os níveis da sociedade; ou por um domínio orgânico-hormonal (que ironia!)...”.
_AGORA...RESPIRE FUNDO...OUTRA VEZ...AGORA...
_É um lindo menino! – disse o obstetra.
E eu, ainda tonta, feliz e preocupada com o futuro daquela vidinha que a mim chegava, sabia, agora, que Das Dores era a menina que eu receava ter.
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